
__Às vezes sinto como se viver fosse tal qual um susto após outro. Em tempos de violência, é mais ou menos isso.
__Há quem diga que é besteira, que é puro exagero de quem está à beira da síndrome do pânico - coisas de quem se institucionalizou na vida urbana. Besteira? Nunca! Exagero? Talvez... O fato é que tornou-se um hábito coletivo esse negócio de tentar escapar do mórbido sorteio do destino: quem será aquele que encontrará a bala perdida?, quem perderá mais um celular - que ainda não está pago! - para o assaltante da vez?, quem será a nova vítima de uma abordagem diante de um caixa eletrônico?... de quem será a vez?
__Acabou aquele negócio de Robin Hood, o romântico ladrão que tirava dos ricos soberbos para distribuir aos pobres desassistidos, a fim de lhes saciar a fome de pão. Não há mais o famoso "roubar para sobreviver", e sim "azar o teu que tem o que eu quero e não posso pagar... aliás, me dá esse par de tênis maneiro também, vagabundo!"... Isso mesmo, VA-GA-BUN-DO! Assim somos chamados, os que madrugam para não perder o transporte que leva ao trabalho, os que pagam impostos, os que sustentam um lar, os que suam a camisa e a fronte acreditando que um dia, tudo pode melhorar. Somos vagabundos.
__Não aceito que me digam que é besteira o susto de cada dia. A violência tornou-se um status de cidade que se diz grande. Ser mau é "cult", dá ibope. Ostentar um celular recém-roubado pode dar pontos positivos na hierarquia dos criminosos de plantão - mais ainda se for um celular de última geração, mesmo que contenha algumas manchinhas de sangue...
__O que está acontecendo com os nossos dias? Em que estamos nos transformando? O que nos aguarda?
__Não acho que escrevo besteiras.
__Posso apenas estar exagerando.

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