segunda-feira, 12 de maio de 2008

Beijo Guardado

café e metáforas
fizeram minha língua
amarga,
e já tão cansada
por não saber,
ainda,
conjugar
o verbo certo...
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minha língua
busca a doçura
de outra língua,
que é a tua e a minha,
noutro beijo - meu desejo!
que é o teu;
não tão meu...
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minha língua
repousa agora santa,
solta,
num canto, só,
sob um céu da boca
sem estrelas,
sem sabor.
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R. Calvet

domingo, 11 de maio de 2008

Tempus fugit

Enquanto enterro
pés e mãos
em trabalhos sem sentido
e sem razão
meus grãos
escoam
ora lenta
ora rapidamente...
Para onde vai
o tempo
que insisto em perder?
Por que insistem tanto
para que eu me perca?
Caindo vão os grãos
para o fundo
de minha ampulheta...
Por que o "sentir-me assim"?
R. Calvet

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Passatempos (ou Subterfúgio)


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________________________________________Para Nani

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Um gole de café...

é fim de tarde.

Capuccino, chantilly... ou um Chianti?!

Em meu corpo, tudo que é você arde!

Em mim, resquícios de um sorriso distante.

- Saudade!

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Passo o tempo mais um pouco.

Como um louco, busco passatempos:

Rei ameaçado - "cavalo preto na f3!" - xeque-mate!

... e outro café ludibria a tarde...

E esquenta - ou tenta! - o meu corpo

... que arde!

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- Onde estás? - pergunto noutro fim de tarde...


R. Calvet
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Créditos da foto: "Nu", de Luís Mendonça

quarta-feira, 7 de maio de 2008

"Desta água não beberei"





(um texto de improviso,
que quero dedicar a todos os mártires
improvisados pela verdade
e moldados pela virtude)

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Já faz um certo tempo – e como estamos em tempos hiperdinâmicos, hiperbólicos, hiper-modernos, já faz bastante tempo mesmo –, creio que em 1998, um momento epifânico de um colega me fez despertar um questionamento que ainda carrego comigo desde sempre (e até quando?).
Primeiro foi o nada nutritivo (e muito menos leve!) almoço no restaurante universitário (no caso, o R.U. da Universidade Federal do Ceará, Campus do Benfica). Ah! Lembro bem que era algo parecido com um frango, meio acinzentado e sabor subterfúgios, acompanhado por uma massa uniforme branca a que o servente insistia chamar de arroz, além de uma porção de maníacos grãos, imensos e maníacos grãos de farinha, sedentos de obturações e lascas de dentes sensíveis para quebrar. “E não tinha feijão?”, perguntaria o leitor, ávido de saber – curiosidade vã, no caso –; “é claro que tinha feijão”, respondo, “eu é que não tinha coragem de comê-lo”. Para beber, “suco de amarelo”, cujo sabor costumava ofuscar o paladar de quem o consumisse pelas quatro ou cinco horas seguintes... e, apesar disso tudo, quanta saudade!
Depois do almoço, nada como uma sobremesa filosófica. Eu e alguns colegas, “satisfeitíssimos” com o repasto indigesto que a universidade nos oferecia por R$1,10 fomos ao bosque do curso de Letras. Sentamo-nos sob as mangueiras, recitamos nossas e alheias poesias, contemplativos, ruminando idéias mirabolantes e restos de mirabolantes grãos de farinha que teimavam, agarrados e confundidos com as obturações heróicas do dia. Solzinho, ventinho, passarinho, soninho... tudo em paz, tudo em ordem (sic?).
“Desta água não beberei!”... O passarinho que beliscava uma manga caída voou. E nós, despencados de nossos devaneios, olhamos para o autor do grito inesperado: “Quê?!”
Sem muita demora, os olhares inquisidores obtiveram uma explicação, e tudo girava em torno de uma estória muito antiga que, segundo nosso colega “filosofador-de-plantão”, era mais ou menos assim:

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“Há muito tempo, num reino distante, brotou, no meio de uma praça, num jorro, um olho d’água. O fato logo atraiu curiosos de todos os lugares, que queriam ver a água que nasceu da terra. Políticos oportunistas daquele lugar, aproveitando-se da superstição do povo, mandaram construir uma linda fonte, toda ornamentada, para que os fiéis (leia-se “bestas”) cultuassem a santa água e fizessem suas pequenas oferendas – alguns dobrões ou patacas que, diga-se de passagem, já não estariam mais lá no dia seguinte. Em pouco tempo a fonte virou símbolo daquele reino.
Um dia, a sede de alguém foi mais forte que a admiração pela fonte e tem início uma nova parte para a história do povo daquele local: um sujeito que passava por ali, sob um sol escaldante, recostou-se junto à borda da fonte e tomou alguns goles da tão famosa água. Saciada a sede, em gritos eufóricos e pulos tresloucados, o homem saía chamando a todos para também beberem um pouco daquela água, pois não sabiam o que estavam perdendo. O primeiro foi um moleque remelento, que tão logo tirou a cara de dentro da fonte, exibiu um sorriso incompleto – faltavam-lhe os dentes incisivos – e ensandecido; depois, uma moça que, mal tocou os lábios no cristalino líquido, rasgou o vestido rústico que usava e, nua, atracava-se com um monge com cara de coiote faminto e louco para também dar uns bons goles. Depois mais um, mais outro e outro ainda...
O único que ainda não havia provado daquela água foi um poeta. Desconfiara da mudança de comportamento de uns, e mais ainda da revelação da hipocrisia da maioria – como era o caso do monge com cara de coiote. “Desta água não beberei!”, disse ele resoluto. Decidiu não beber por acreditar que a loucura que subitamente acometera a todos daquele povoado provinha da maldita fonte. E estava certo. Apesar disso, cometeu um erro; neste caso, o seu último erro.
O poeta estava decidido a reverter aquele processo irreversível. Coitado! Saiu pelas ruas tentando avisar as pessoas sobre o perigo daquela água. Tarde demais! Todos já estavam loucos e, por esta razão, não o compreendiam.
Sozinho ficou o poeta com as suas convicções e com a sua razão sem serventia alguma. Racionalmente ficou só, no meio de loucos. Um alienígena em terra estranha.
E foi, derrotado, até a fonte, com uma caneca de cobre na mão, para matar a sua sede de companhia. Goles depois e o sorriso embasbacado do pobre poeta encontrava coro na multidão abobalhada.”
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Ninguém viveu feliz pra sempre na estória acima. Mas também não ficou só.
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Este é o problema. Este é o ponto em que eu queria chegar. Uma massa abobalhada prefere seguir na contra-mão do progresso, da evolução, só para não terminar só. A maioria prefere atropelar a consciência, afogar a ética, apunhalar a virtude pelas costas. Comodismo mesmo... Infelizmente!
Sinto-me um poeta mais resoluto. Desta água não beberei! Não preciso nem devo afogar em águas turvas de hipocrisia e covardia as minhas convicções. Não quero a companhia de multidões sem alma, sem tino.
Ainda que só, ainda que, porventura, perseguido, desta água não beberei!

(Rafael Calvet)






Créditos da foto: "Às avessas", de Ana Maria Russo

quinta-feira, 1 de maio de 2008

haicai momento


ouço um bem-te-vi,

olhando nuvens passando.

fico por aqui.

(Rafael Calvet)

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Créditos: Foto "Calmaria", de Benjamim Daniel

Abrindo gavetas

Há pouco tempo decidi abrir gavetas. Esvaziá-las.
Algumas prateleiras empoeiradas, repletas de reminiscências, também foram alvo de uma certa faxina pessoal. Acho que tenho uma mórbida mania de guardar tralhas em minha memória, coisas sem valor que vejo por aí em minhas vivências. Mas nem tudo – ao menos creio assim – é tão inútil assim. O que não foi rasgado ou queimado, nem jogado ao mar, emerge em algumas telas de computador, em algum lugar, a qualquer momento.

Não gosto de tudo o que escrevo. Apenas tento evitar a oportunidade de registrar em guardanapos, folhas amassadas e frias páginas do Microsoft Word o que vejo e penso, pelos lugares onde vou passando. Confesso, ainda, que até gosto de alguma coisa, como certos haicais – alguns imemoriais – e outros textos sem razões aparentes.

Começo a semear agora o que ficou guardado por tanto tempo; assim, quem sabe, algo floresça.


Grande grande abraço a quem quer que seja.


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Das coisas que nunca mais teremos


Um menino-poeta
rabisca sonhos lilases
em folhas de vento.
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Seus pequenos olhos
refletem o brilho
das coisas esquecidas
como as canções
perdidas no tempo.
(Rafael Calvet)

“Sob o sono dos séculos...”

Silenciosamente, mais uma noite. Mais uma semente plantada para fazer crescer um outro dia. As perspectivas do dia seguinte ganham contornos de angústia, pois as horas são como um carrossel: recomeço; repetições... gira-gira, giramundo e, de novo, tudo.
Sempre tive a vã esperança de que, um dia, o ponteiro dos segundos, em seu trabalho de Sísifo, rebelasse-se contra as leis de Cronos e, surpreendentemente, quebrasse as barreiras das expectativas entediadas. “Tic, tac, 58, 59, tic, 60, tac, 61, 62, tic, tac...” Enfim, o esboço de transformação! O tão esperado “agora vai”!
Mas não.

As horas vão e vêm; depois vão novamente para, em seguida, virem no mesmo e enfadonho giro do carrossel.
Sou obrigado a ter pressa.
É a sina do trabalho, que me exige quilômetros de textos digitados, provas sem-fim e incontáveis relatórios e planejamentos de aulas. E as horas vão passando enquanto minhas leituras prazerosas ficam de lado, com marcadores entre as páginas de tantos livros, à espera de seu ocupadíssimo leitor. Meu xadrez? Já nem sei. Quando posso, leio alguma coisa na internet, vejo fotos e imagino jogos que não jogo. Já não desenho – só faço uma infinidade de rascunhos e guardo numa das inúmeras e empoeiradas gavetas porta-projetos-inconclusos que existem em minha atormentada cabeça. E as horas vão acabando...
Amanhã começo tudo de novo.
TIC, TAC, TIC, TAC...