incômodo.
palavras avulsas
antes presas na ponta da língua
saindo das pontas dos dedos
a cada toque,
a cada tecla,
a cada gole de vinho.
tinto o vinho.
retinta a noite.
um filme sobre solidão e dúvidas
passa na tevê
a tais e tantas horas
da noite ou da madrugada.
mais nada.
mais nada.
tenho vontade
de ter vontades.
de fazer, de pensar,
de ser, de tentar.
mas, nada!
mais nada.
____________________________
Há horas, como agora, em que é preciso saber fazer o tempo parar e depois passar.
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domingo, 4 de abril de 2010
domingo, 31 de maio de 2009
O Velho na Calçada
Sentado, aos pés do luxo,
jeito de achar-se lixo,
um homem sem nome,
um velho:
Mãos calejadas estendidas;
olhos suplicantes,
marejados e desiludidos;
voz rouca, distante,
perdida - "Por favor, moço..."
O Velho pede um olhar fraterno.
_
As roupas rasgadas e desajustadas,
(nojo de quem passa)

a pele suja e maltratada,
(desprezo de quem vê)
cheiro de quem não sonha mais:
(pesadelo de todos)
o Velho. Um velho.
_
Sente-se nada ou nada mais do que um bicho.
Bichos são homens-seres sem nome
que saciam a inesgotável fome
no lixo!
_
O Velho olhou para mim.
Fraternalmente, um velho olhou para mim...
Mas não consegui lhe dar
mais do que uma moeda...
(Rafael Calvet)
_____________________________________________________
___Já se passou muito tempo, desde que esta epifânica situação me arremessou contra a folha de papel e minha máquina de datilografar...
___Creio que o velho de então já não mais existe. Mas a situação, esta, insiste!
quinta-feira, 21 de maio de 2009
sobre mim
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
crisis – operis processio

crisis – operis processio
_
a fumaça do incenso desenhava arabescos no ar.
um lá menor com nona dá início, no violão, a outra noite daquelas.
dança no fundo da taça um borrão rubro de um necessário Porto:
outra vez a taça cheia; na lembrança, uma qualquer outra lua cheia...
cheia de mim por ser tão vazio de realizações.
_
nos dedos, a dança das cordas na busca pelo acorde certo: esquecimento;
na voz, o embargo do que não foi cantado, do que não foi... jamais poderia ter sido.
nos olhos, a mesma qualquer outra lua cheia derrete, desfaz-se, escorre e vai.
mais um borrão rubro-sangue no fundo da taça, de novo a taça cheia.
_
(Rafael Calvet)
_
a fumaça do incenso desenhava arabescos no ar.
um lá menor com nona dá início, no violão, a outra noite daquelas.
dança no fundo da taça um borrão rubro de um necessário Porto:
outra vez a taça cheia; na lembrança, uma qualquer outra lua cheia...
cheia de mim por ser tão vazio de realizações.
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nos dedos, a dança das cordas na busca pelo acorde certo: esquecimento;
na voz, o embargo do que não foi cantado, do que não foi... jamais poderia ter sido.
nos olhos, a mesma qualquer outra lua cheia derrete, desfaz-se, escorre e vai.
mais um borrão rubro-sangue no fundo da taça, de novo a taça cheia.
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(Rafael Calvet)
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Pedra-Flor
Eu diante da pedra
que o poeta me ensinou:
"teu sangue é o cinzel
que a pedra torna flor".
_
Eu diante da flor
que a vida espera
levar do cheiro e da cor
que fluíam do fundo da pedra:
_
Eu pintando a pedra
com um sonho furta-cor
como a vida-minha, essa quimera,
que anseio por tornar flor.
_
Eu, como a flor,
espírito feito de pedra,
respiro e assimilo a dor
numa constante e ansiosa espera
pela alma gêmea, meu clamor;
pela vida despida de dor;
um sonho, pulsante, ardor;
os olhos salgados de amor
e o coração libertado da guerra.
_
(Rafael Calvet)
sábado, 24 de maio de 2008
As imagens que sempre hão de vir
Refletida em meu espelho,
a imagem que vejo,
trêmula, indefinida,
acena como quem se despede.
_
Não a encaro.
Imito, vacilante, seu aceno,
como quem busca, também, se despedir.
Despeço-me de mim.
_
Súbito, sem querer,
e como quem busca por isso,
nossos olhares - meus olhares - se encontram.
Em vão disfarço minha angústia;
então faço-me não-ser,
por tanto tempo não estar.
_
_
_
R. Calvet
a imagem que vejo,
trêmula, indefinida,
acena como quem se despede.
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Não a encaro.
Imito, vacilante, seu aceno,
como quem busca, também, se despedir.
Despeço-me de mim.
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Súbito, sem querer,
e como quem busca por isso,
nossos olhares - meus olhares - se encontram.
Em vão disfarço minha angústia;
então faço-me não-ser,
por tanto tempo não estar.
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R. Calvet
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Beijo Guardado
café e metáforas
fizeram minha língua
amarga,
e já tão cansada
por não saber,
ainda,
conjugar
o verbo certo...
_
minha língua
busca a doçura
de outra língua,
que é a tua e a minha,
noutro beijo - meu desejo!
que é o teu;
não tão meu...
_
minha língua
repousa agora santa,
solta,
num canto, só,
sob um céu da boca
sem estrelas,
sem sabor.
_
_
R. Calvet
fizeram minha língua
amarga,
e já tão cansada
por não saber,
ainda,
conjugar
o verbo certo...
_
minha língua
busca a doçura
de outra língua,
que é a tua e a minha,
noutro beijo - meu desejo!
que é o teu;
não tão meu...
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minha língua
repousa agora santa,
solta,
num canto, só,
sob um céu da boca
sem estrelas,
sem sabor.
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R. Calvet
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Passatempos (ou Subterfúgio)
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________________________________________Para Nani
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Um gole de café...
é fim de tarde.
Capuccino, chantilly... ou um Chianti?!
Em meu corpo, tudo que é você arde!
Em mim, resquícios de um sorriso distante.
- Saudade!
_
Passo o tempo mais um pouco.
Como um louco, busco passatempos:
Rei ameaçado - "cavalo preto na f3!" - xeque-mate!
... e outro café ludibria a tarde...
E esquenta - ou tenta! - o meu corpo
... que arde!
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- Onde estás? - pergunto noutro fim de tarde...
R. Calvet
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Créditos da foto: "Nu", de Luís Mendonça
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Abrindo gavetas
Há pouco tempo decidi abrir gavetas. Esvaziá-las.
Algumas prateleiras empoeiradas, repletas de reminiscências, também foram alvo de uma certa faxina pessoal. Acho que tenho uma mórbida mania de guardar tralhas em minha memória, coisas sem valor que vejo por aí em minhas vivências. Mas nem tudo – ao menos creio assim – é tão inútil assim. O que não foi rasgado ou queimado, nem jogado ao mar, emerge em algumas telas de computador, em algum lugar, a qualquer momento.
Não gosto de tudo o que escrevo. Apenas tento evitar a oportunidade de registrar em guardanapos, folhas amassadas e frias páginas do Microsoft Word o que vejo e penso, pelos lugares onde vou passando. Confesso, ainda, que até gosto de alguma coisa, como certos haicais – alguns imemoriais – e outros textos sem razões aparentes.
Algumas prateleiras empoeiradas, repletas de reminiscências, também foram alvo de uma certa faxina pessoal. Acho que tenho uma mórbida mania de guardar tralhas em minha memória, coisas sem valor que vejo por aí em minhas vivências. Mas nem tudo – ao menos creio assim – é tão inútil assim. O que não foi rasgado ou queimado, nem jogado ao mar, emerge em algumas telas de computador, em algum lugar, a qualquer momento.
Não gosto de tudo o que escrevo. Apenas tento evitar a oportunidade de registrar em guardanapos, folhas amassadas e frias páginas do Microsoft Word o que vejo e penso, pelos lugares onde vou passando. Confesso, ainda, que até gosto de alguma coisa, como certos haicais – alguns imemoriais – e outros textos sem razões aparentes.
Começo a semear agora o que ficou guardado por tanto tempo; assim, quem sabe, algo floresça.
Grande grande abraço a quem quer que seja.
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Das coisas que nunca mais teremos

Um menino-poeta
rabisca sonhos lilases
em folhas de vento.
_
Seus pequenos olhos
refletem o brilho
das coisas esquecidas
como as canções
perdidas no tempo.
(Rafael Calvet)
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