quarta-feira, 23 de abril de 2008

Alento (ou uma tentativa)




"A vida é tão curta

E a minha capacidade de criar

Tão intensa

E minha alma tão tensa de vier."

(Raul Brandão)


Uma boa caligrafia (suada e sangrada) ou alguns caracteres bem definidos não seriam suficientes para descrever a minha metamorfose. Não aquela metamorfose kafkiana, mas outra, em que tudo começa pelo inseto, não pelo homem: a minha metamorfose!

Repentinamente o tempo mudou o seu ritmo - eu expurguei o meu! - e passou a correr no compasso do meu coração calejado: os anos passados tornaram-se segundos incertos e abomináveis. Agora o tempo é um constante déjà vu. Eu sou um déjà vu! Eu sou o grão de areia rebelde que fugiu da ampulheta trincada.

Eu procuro dunas...

Bem sei que tudo aquilo que já escoou não retornará, nunca mais, ao cone superior... Nunca mais; a não ser quando invocado pelo tédio da memória ou pela incompreensível ânsia de saborear, desesperadamente, o fel oculto do desejo. Não saberia explicar como fui capaz de suportar, por tanto tempo a angústia de sentir que... É, talvez a minha metamorfose tenha começado a se manifestar antes do que eu supunha, e o então profundo entorpecimento dos meus sentidos camuflaram, convenientemente bem, cada gesto vazio, cada passo incerto, cada riso conivente e maldito.

Destarte, a percepção definitiva de que a minha fase é um fato, faz dos meus gestos verbos mais concisos; dos meus passos imprecisos um motor impulsionado pelas incertezas; do meu riso - virtude dos que ainda não entregaram a alma ao cansaço - um anseio constante para quem não é tão estóico assim.


R. Calvet

terça-feira, 22 de abril de 2008

Um Começo...

Em tempos de pressa, expor o pensar e sentir tornou-se raro.
Em tempos de pressa, a direção é incerta, a meta é duvidosa.
E o homem disse "Faça-se a NET!", e a NET foi feita. Desfeitos ficamos todos nós, o próprio homem, que desumanizou-se, que desumaniza-se paulatinamente - e, quiçá, irreversivelmente - a ponto de não saber mais conversar olhando nos olhos, de não saber mais manusear uma caneta - salvo para assinar promissórias e pontos.

Em tempos de pressa, também corro... mas atraso, por arrastar comigo a minha insubstituível necessidade de expressar o meu pensar, o meu sentir.

Em tempos de pressa, a cada parada obrigatória ou necessária, deixarei um pedaço de mim, a ser dividido como o pão, que nutre ou sufoca, num derradeiro engasgo.

Saúdo-me,
pelo começo.
Saúdo-te,
pela visita,
pela comunhão do pensar e sentir,
pelo momento de agora, que passa apressadamente.

R. Calvet