
"A vida é tão curta
E a minha capacidade de criar
Tão intensa
E minha alma tão tensa de vier."
(Raul Brandão)
Uma boa caligrafia (suada e sangrada) ou alguns caracteres bem definidos não seriam suficientes para descrever a minha metamorfose. Não aquela metamorfose kafkiana, mas outra, em que tudo começa pelo inseto, não pelo homem: a minha metamorfose!
Repentinamente o tempo mudou o seu ritmo - eu expurguei o meu! - e passou a correr no compasso do meu coração calejado: os anos passados tornaram-se segundos incertos e abomináveis. Agora o tempo é um constante déjà vu. Eu sou um déjà vu! Eu sou o grão de areia rebelde que fugiu da ampulheta trincada.
Eu procuro dunas...
Bem sei que tudo aquilo que já escoou não retornará, nunca mais, ao cone superior... Nunca mais; a não ser quando invocado pelo tédio da memória ou pela incompreensível ânsia de saborear, desesperadamente, o fel oculto do desejo. Não saberia explicar como fui capaz de suportar, por tanto tempo a angústia de sentir que... É, talvez a minha metamorfose tenha começado a se manifestar antes do que eu supunha, e o então profundo entorpecimento dos meus sentidos camuflaram, convenientemente bem, cada gesto vazio, cada passo incerto, cada riso conivente e maldito.
Destarte, a percepção definitiva de que a minha fase é um fato, faz dos meus gestos verbos mais concisos; dos meus passos imprecisos um motor impulsionado pelas incertezas; do meu riso - virtude dos que ainda não entregaram a alma ao cansaço - um anseio constante para quem não é tão estóico assim.
R. Calvet
