quarta-feira, 7 de maio de 2008

"Desta água não beberei"





(um texto de improviso,
que quero dedicar a todos os mártires
improvisados pela verdade
e moldados pela virtude)

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Já faz um certo tempo – e como estamos em tempos hiperdinâmicos, hiperbólicos, hiper-modernos, já faz bastante tempo mesmo –, creio que em 1998, um momento epifânico de um colega me fez despertar um questionamento que ainda carrego comigo desde sempre (e até quando?).
Primeiro foi o nada nutritivo (e muito menos leve!) almoço no restaurante universitário (no caso, o R.U. da Universidade Federal do Ceará, Campus do Benfica). Ah! Lembro bem que era algo parecido com um frango, meio acinzentado e sabor subterfúgios, acompanhado por uma massa uniforme branca a que o servente insistia chamar de arroz, além de uma porção de maníacos grãos, imensos e maníacos grãos de farinha, sedentos de obturações e lascas de dentes sensíveis para quebrar. “E não tinha feijão?”, perguntaria o leitor, ávido de saber – curiosidade vã, no caso –; “é claro que tinha feijão”, respondo, “eu é que não tinha coragem de comê-lo”. Para beber, “suco de amarelo”, cujo sabor costumava ofuscar o paladar de quem o consumisse pelas quatro ou cinco horas seguintes... e, apesar disso tudo, quanta saudade!
Depois do almoço, nada como uma sobremesa filosófica. Eu e alguns colegas, “satisfeitíssimos” com o repasto indigesto que a universidade nos oferecia por R$1,10 fomos ao bosque do curso de Letras. Sentamo-nos sob as mangueiras, recitamos nossas e alheias poesias, contemplativos, ruminando idéias mirabolantes e restos de mirabolantes grãos de farinha que teimavam, agarrados e confundidos com as obturações heróicas do dia. Solzinho, ventinho, passarinho, soninho... tudo em paz, tudo em ordem (sic?).
“Desta água não beberei!”... O passarinho que beliscava uma manga caída voou. E nós, despencados de nossos devaneios, olhamos para o autor do grito inesperado: “Quê?!”
Sem muita demora, os olhares inquisidores obtiveram uma explicação, e tudo girava em torno de uma estória muito antiga que, segundo nosso colega “filosofador-de-plantão”, era mais ou menos assim:

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“Há muito tempo, num reino distante, brotou, no meio de uma praça, num jorro, um olho d’água. O fato logo atraiu curiosos de todos os lugares, que queriam ver a água que nasceu da terra. Políticos oportunistas daquele lugar, aproveitando-se da superstição do povo, mandaram construir uma linda fonte, toda ornamentada, para que os fiéis (leia-se “bestas”) cultuassem a santa água e fizessem suas pequenas oferendas – alguns dobrões ou patacas que, diga-se de passagem, já não estariam mais lá no dia seguinte. Em pouco tempo a fonte virou símbolo daquele reino.
Um dia, a sede de alguém foi mais forte que a admiração pela fonte e tem início uma nova parte para a história do povo daquele local: um sujeito que passava por ali, sob um sol escaldante, recostou-se junto à borda da fonte e tomou alguns goles da tão famosa água. Saciada a sede, em gritos eufóricos e pulos tresloucados, o homem saía chamando a todos para também beberem um pouco daquela água, pois não sabiam o que estavam perdendo. O primeiro foi um moleque remelento, que tão logo tirou a cara de dentro da fonte, exibiu um sorriso incompleto – faltavam-lhe os dentes incisivos – e ensandecido; depois, uma moça que, mal tocou os lábios no cristalino líquido, rasgou o vestido rústico que usava e, nua, atracava-se com um monge com cara de coiote faminto e louco para também dar uns bons goles. Depois mais um, mais outro e outro ainda...
O único que ainda não havia provado daquela água foi um poeta. Desconfiara da mudança de comportamento de uns, e mais ainda da revelação da hipocrisia da maioria – como era o caso do monge com cara de coiote. “Desta água não beberei!”, disse ele resoluto. Decidiu não beber por acreditar que a loucura que subitamente acometera a todos daquele povoado provinha da maldita fonte. E estava certo. Apesar disso, cometeu um erro; neste caso, o seu último erro.
O poeta estava decidido a reverter aquele processo irreversível. Coitado! Saiu pelas ruas tentando avisar as pessoas sobre o perigo daquela água. Tarde demais! Todos já estavam loucos e, por esta razão, não o compreendiam.
Sozinho ficou o poeta com as suas convicções e com a sua razão sem serventia alguma. Racionalmente ficou só, no meio de loucos. Um alienígena em terra estranha.
E foi, derrotado, até a fonte, com uma caneca de cobre na mão, para matar a sua sede de companhia. Goles depois e o sorriso embasbacado do pobre poeta encontrava coro na multidão abobalhada.”
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Ninguém viveu feliz pra sempre na estória acima. Mas também não ficou só.
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Este é o problema. Este é o ponto em que eu queria chegar. Uma massa abobalhada prefere seguir na contra-mão do progresso, da evolução, só para não terminar só. A maioria prefere atropelar a consciência, afogar a ética, apunhalar a virtude pelas costas. Comodismo mesmo... Infelizmente!
Sinto-me um poeta mais resoluto. Desta água não beberei! Não preciso nem devo afogar em águas turvas de hipocrisia e covardia as minhas convicções. Não quero a companhia de multidões sem alma, sem tino.
Ainda que só, ainda que, porventura, perseguido, desta água não beberei!

(Rafael Calvet)






Créditos da foto: "Às avessas", de Ana Maria Russo

Um comentário:

Nani disse...

Manter-se firme naquilo que se acredita é mais difícil do que
se pensa, especialmente quando
é algo bom.