quarta-feira, 23 de julho de 2008

Férias


Dias diferentes.

Dias do "hoje eu não preciso fazer isso ou aquilo".

As férias estão se encaminhando para os seus últimos momentos e estou com aquela sensação de despedida, como aquela dos aeroportos ou estações rodoviárias. O dia da viagem de alguém querido está chegando e o inconformismo bate à porta. Ao mesmo tempo, temos a grande e incontestável certeza de que a despedida é temporária. Outras férias virão.

Mas, ô saudade chata...

Nesta última temporada contei com eventos que há muito não vivia: viagens, passeios, reencontros, cinema com pipoca, meus desenhos e escritos guardados, um pouco de meu empoeirado violão, músicas tantas, leituras e, o mais importante, a presença mais constante ao lado de minha família.

Daqui a pouco as férias terminam e o ritmo alucinado do trabalho e preocupações agregadas retornam com o despertador programado para tocar muito, mas muito mais cedo. Entretanto estou com uma paz há tanto distante...

Não vou lamentar o fim destas férias porque tenho a certeza de que o vindouro tempo de trabalho me fará ansioso pelo próximo período de repouso e lazer.

Outras férias virão para que eu sempre tenha a certeza.

sábado, 7 de junho de 2008

Algo escrito há tanto tempo, que até parece que foi hoje...


“Tempus fugit!”

__O tempo foge, segundo a concepção dos antigos filósofos gregos, que incitavam o homem a viver a vida – “Carpe Diem!” – porque esta, invariavelmente, tem um fim.
Decerto que este texto não é uma dissertação sobre a morte ou sobre o pessimismo; ao contrário, é um pequeno ensaio sobre a vida, ou melhor, sobre as vidas que existem em cada vida, afinal de contas, não é todo dia que podemos contemplar mais uma fase da existência de um ser que amamos.
__Cada ano vivido corresponde a uma etapa de aprendizado para o nosso espírito. Ano após ano temos a grata oportunidade – que nos é oferecida por Deus – de galgarmos mais um passo rumo à paz, à harmonia. Eis o sentido da vida; sempre mais concreto e coerente quando se vislumbra, de coração leve, tudo aquilo de mais sublime que conseguimos conquistar ao longo de nossa jornada por esta terra gloriosa.
__Ao fim de uma década de existência, podemos perceber que já somos capazes de fazer julgamento de valores e discernir o certo daquilo que está ou é errado. Aos quinze anos, achamos que tudo nos pertence e que o mundo, apesar de ser pequeno demais, não pode ser ignorado e, por isso, deve ser explorado e conquistado por nossa rebeldia. Vinte e cinco anos e temos a impressão de que a juventude não é eterna, tal como sempre sonhamos e, quiçá, um dia realmente acreditamos. Trinta anos e nos sentimos “jovens senhores ou senhoras”; passamos a ter a certeza de que a morte é real e que nos conhece muito bem; sentimos um aperto no coração e uma vontade indescritível de nos perpetuar em nossos filhos; analisamos e enfrentamos o mundo de forma bem mais sensata e cautelosa: somos, definitivamente, adultos! Depois dos quarenta, é até normal que nos sintamos velhos – apesar disto ser bastante relativo.
__Passados cinqüenta anos, todo ser humano pode estar numa posição certamente mais privilegiada no que tange à experiência. Entretanto, engana-se aquele ou aquela que julga não ter mais caminhos a percorrer, mais lições para aprender, mais experiências para adquirir. Se meio século transcorreu, cumulando o indivíduo de vivências, ainda há outro meio século a esperá-lo.
__A vida não tem idade. A vida é sempre recém-nascida.
__Na nossa mais recôndita intimidade, buscamos encontrar aquilo que nos torna mais plenos diante do mundo e do outro, todavia, há sempre um quê de vazio, a nos incomodar nas horas cinzentas. É o momento não vivido; é a palavra não dita e o doce não roubado na infância. É o sorriso não retribuído ou a carta nunca respondida. É a lágrima jamais compartilhada através de um pedido de perdão que, por nossa vaidade ou a mais profunda insipiência, jamais cruzou os nossos lábios...
__“Tempus fugit”!... E o caminho a ser ainda percorrido é bastante extenso.


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Rafael Calvet

terça-feira, 27 de maio de 2008

"Quem perde o tempo, eterna perda chora."


__Hoje, vinte e cinco anos depois, dou de cara com a mesma frase, que estampava o alto da parede de minha antiga sala de aula, sobre o quadro-negro. Ainda menino a frase me causava um certo "rebuliço n'alma"... Hoje, a frase me acorda no meio da noite.

__Quanto tempo já andei perdendo!

__Quanto sentido tudo isto faz hoje...

sábado, 24 de maio de 2008

As imagens que sempre hão de vir

Refletida em meu espelho,
a imagem que vejo,
trêmula, indefinida,
acena como quem se despede.
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Não a encaro.
Imito, vacilante, seu aceno,
como quem busca, também, se despedir.
Despeço-me de mim.
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Súbito, sem querer,
e como quem busca por isso,
nossos olhares - meus olhares - se encontram.
Em vão disfarço minha angústia;
então faço-me não-ser,
por tanto tempo não estar.
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R. Calvet

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Corpus Christi


_Hoje é véspera de Corpus Christi.

_Amanhã é feriado.

_Para muitos, hoje é véspera de qualquer coisa. O importante é que amanhã é feriado.

_Não vou dar corda em meu relógio.

_Acordarei tarde. Tomarei meu café calmamente, dessa vez, com pão e manteiga. Soprarei a poeira de meus livros. Ouvirei alguma música porque terei tempo de escolher um CD na estante. _Vou ficar com minha esposa e minha filha e guardar a emoção do "Vai com Deus e volte com Deus!" de todos os dias para a próxima sexta-feira.

_Porque amanhã é Corpus Christi. E hoje é véspera de uma paz que eu espero há tanto tempo...

_Experimento um êxtase quase infante, de véspera de natal, com cheiro de panetone e presentes debaixo da árvore.

_Amanhã não me preocuparei se amanhecer chovendo. Não olharei para o relógio. Não escolherei blusas que combinem com a aula que eu não vou dar. Nada de diários de classe, nada de questionários não compreendidos por quem não se compreende.

_Hoje é véspera de mim. Saberei o que pensar, o que fazer. Meditarei em silêncio porque haverá silêncio para a meditação. E paz, sobretudo, PAZ!

_Hoje é véspera de um momento que não é só um feriado.

_Amanhã é Corpus Christi.

_Hoje é véspera de paz!

_Amém.
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_(R. Calvet)

A madrugada respira idéias bastantes...

"Porque a existência é tão efêmera
como o orvalho do entardecer e a geada da manhã,
e especialmente incerta é a vida do guerreiro."
- Daidoji Yuzan - O Código do Samurai

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Insônia


__Aqui, onde estou, tudo parece diferente. Tudo parece ganhar proporções singularmente assustadoras e, enquanto penso nisto, sou invocado para testemunhar a morte de mais um dia. O relógio na parede não parou para pensar em mim...
__Em poucos minutos devo estar preparado; não para recomeçar, mas para continuar sem me preocupar com a dimensão de certas coisas - nem todas são assustadoras; nem todas são coisas.
__Sinto, aliás, pressinto o amanhã cada vez mais presente no meu modo de agir e pensar, no entanto, a vida não me permite entender o processo. Sim, o relógio continua lá, me observando com seus ponteiros apressados... falta pouco.
__Agora começo a entender por que minha felicidade é tão relativa - minha razão de ser tão ensimesmado é, também, muito relativa - e por que devo estar mais concentrado e presto, pois o dia convalesce enquanto outro nasce, à minha espera. Presto, eu disse!
__Falta pouco... muito pouco...
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(R. Calvet)