domingo, 18 de janeiro de 2009

O Susto Nosso de Cada Dia



__Às vezes sinto como se viver fosse tal qual um susto após outro. Em tempos de violência, é mais ou menos isso.

__Há quem diga que é besteira, que é puro exagero de quem está à beira da síndrome do pânico - coisas de quem se institucionalizou na vida urbana. Besteira? Nunca! Exagero? Talvez... O fato é que tornou-se um hábito coletivo esse negócio de tentar escapar do mórbido sorteio do destino: quem será aquele que encontrará a bala perdida?, quem perderá mais um celular - que ainda não está pago! - para o assaltante da vez?, quem será a nova vítima de uma abordagem diante de um caixa eletrônico?... de quem será a vez?

__Acabou aquele negócio de Robin Hood, o romântico ladrão que tirava dos ricos soberbos para distribuir aos pobres desassistidos, a fim de lhes saciar a fome de pão. Não há mais o famoso "roubar para sobreviver", e sim "azar o teu que tem o que eu quero e não posso pagar... aliás, me dá esse par de tênis maneiro também, vagabundo!"... Isso mesmo, VA-GA-BUN-DO! Assim somos chamados, os que madrugam para não perder o transporte que leva ao trabalho, os que pagam impostos, os que sustentam um lar, os que suam a camisa e a fronte acreditando que um dia, tudo pode melhorar. Somos vagabundos.

__Não aceito que me digam que é besteira o susto de cada dia. A violência tornou-se um status de cidade que se diz grande. Ser mau é "cult", dá ibope. Ostentar um celular recém-roubado pode dar pontos positivos na hierarquia dos criminosos de plantão - mais ainda se for um celular de última geração, mesmo que contenha algumas manchinhas de sangue...

__O que está acontecendo com os nossos dias? Em que estamos nos transformando? O que nos aguarda?

__Não acho que escrevo besteiras.

__Posso apenas estar exagerando.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Haicai do Amor-Solidão


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insuportável.

flor que brota no deserto:

irresistível.

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(Rafael Calvet)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Fones de ouvido

__Mais de doze horas fora de casa, cumprindo uma jornada de trabalho que começa às seis e quinze da manhã, quando pego o primeiro ônibus. Livros, trabalhos, provas e alguma coisa para comer num almoço solitário e, como sempre, apressadíssimo, pois logo devo retomar a rotina de professor.
__Os dias são assim. Sempre assim. Acordar cedo, antes do sol; café com pão e pressa; barba por fazer quando a navalha não precisar correr. Passos marcados na descida da escada que me conduz ao lado de fora do meu sossego. Outro dia de trabalhos tem início com o meu rosto já banhado de suor... No final, dormir tarde, depois da lua.
__No coletivo, depois de vencer uma desordenada fila de peões anônimos e tantas vezes vistos na minha rotina, tento revigorar a minha fé em dias melhores, orando e pensando em minha esposa e minha filha – razões da maratona diária – que ficam em casa, à espera do pai-de-família-de-cada-dia. Também experimento intermináveis minutos de tensão em toda a trajetória até a escola, afinal, minha tranqüilidade foi embora desde que três criminosos se interpuseram no curso de nossas (minha e de minha família) vidas, num ousado e violento assalto dentro de um ônibus que nos conduzia de volta a casa. Em outra ocasião, outro ousado ladrão assaltou-nos, com requintes de um sadismo e um sarcasmo ameaçadores, amparados pela segurança que um revólver dá a quem o segura. Levaram-nos muito mais do que os pertences; roubaram-nos a paz. Oro por uma viagem tranqüila.
__Quando dá, coloco fones de ouvido para tentar me isolar um pouco daquele ambiente opressor, onde uma hipérbole de pessoas se espreme e tenta, a todo custo, vencer desonestamente todas as leis da física – em especial aquela que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço – e do bom senso.
__Alguma notícia importante, anúncios de festas aonde sei que jamais irei, propaganda, as músicas do momento e do passado que me remetem a uma época da qual nem tudo é saudade... mas às vezes sim. Os fones de ouvido são uma tábua na qual me agarro para escapar daquilo tudo. São minhas asas de Ícaro.
__Em dado momento das tantas viagens percebi que não sou o único usuário dos fones. Mais de dez pessoas com o olhar preso em algum ponto que só o fone de ouvido sabe qual é. A velha pressa dos honestos.
__Enquanto o ônibus vai perfazendo o seu itinerário, vejo o isolamento, os anseios, a angústia de quem corre a cada dia, plugado num som qualquer repleto de quimeras. De repente, vejo a mim mesmo; busco a interpretação das quimeras que correm nas notas musicais que transbordam de meus fones, inundando meus ouvidos com a esperança de que além de mim (naquele causticante ônibus), meu desespero também é “passageiro”.
__Ah, a dura e cronometrada rotina! A velha saga dos que são, como eu, perseguidos implacavelmente pelos relógios de ponto. Mas ainda há, felizmente, os fones de ouvido!

Pedra-Flor

Eu diante da pedra
que o poeta me ensinou:
"teu sangue é o cinzel
que a pedra torna flor".
_
Eu diante da flor
que a vida espera
levar do cheiro e da cor
que fluíam do fundo da pedra:
_
Eu pintando a pedra
com um sonho furta-cor
como a vida-minha, essa quimera,
que anseio por tornar flor.
_
Eu, como a flor,
espírito feito de pedra,
respiro e assimilo a dor
numa constante e ansiosa espera
pela alma gêmea, meu clamor;
pela vida despida de dor;
um sonho, pulsante, ardor;
os olhos salgados de amor
e o coração libertado da guerra.
_
(Rafael Calvet)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Férias


Dias diferentes.

Dias do "hoje eu não preciso fazer isso ou aquilo".

As férias estão se encaminhando para os seus últimos momentos e estou com aquela sensação de despedida, como aquela dos aeroportos ou estações rodoviárias. O dia da viagem de alguém querido está chegando e o inconformismo bate à porta. Ao mesmo tempo, temos a grande e incontestável certeza de que a despedida é temporária. Outras férias virão.

Mas, ô saudade chata...

Nesta última temporada contei com eventos que há muito não vivia: viagens, passeios, reencontros, cinema com pipoca, meus desenhos e escritos guardados, um pouco de meu empoeirado violão, músicas tantas, leituras e, o mais importante, a presença mais constante ao lado de minha família.

Daqui a pouco as férias terminam e o ritmo alucinado do trabalho e preocupações agregadas retornam com o despertador programado para tocar muito, mas muito mais cedo. Entretanto estou com uma paz há tanto distante...

Não vou lamentar o fim destas férias porque tenho a certeza de que o vindouro tempo de trabalho me fará ansioso pelo próximo período de repouso e lazer.

Outras férias virão para que eu sempre tenha a certeza.

sábado, 7 de junho de 2008

Algo escrito há tanto tempo, que até parece que foi hoje...


“Tempus fugit!”

__O tempo foge, segundo a concepção dos antigos filósofos gregos, que incitavam o homem a viver a vida – “Carpe Diem!” – porque esta, invariavelmente, tem um fim.
Decerto que este texto não é uma dissertação sobre a morte ou sobre o pessimismo; ao contrário, é um pequeno ensaio sobre a vida, ou melhor, sobre as vidas que existem em cada vida, afinal de contas, não é todo dia que podemos contemplar mais uma fase da existência de um ser que amamos.
__Cada ano vivido corresponde a uma etapa de aprendizado para o nosso espírito. Ano após ano temos a grata oportunidade – que nos é oferecida por Deus – de galgarmos mais um passo rumo à paz, à harmonia. Eis o sentido da vida; sempre mais concreto e coerente quando se vislumbra, de coração leve, tudo aquilo de mais sublime que conseguimos conquistar ao longo de nossa jornada por esta terra gloriosa.
__Ao fim de uma década de existência, podemos perceber que já somos capazes de fazer julgamento de valores e discernir o certo daquilo que está ou é errado. Aos quinze anos, achamos que tudo nos pertence e que o mundo, apesar de ser pequeno demais, não pode ser ignorado e, por isso, deve ser explorado e conquistado por nossa rebeldia. Vinte e cinco anos e temos a impressão de que a juventude não é eterna, tal como sempre sonhamos e, quiçá, um dia realmente acreditamos. Trinta anos e nos sentimos “jovens senhores ou senhoras”; passamos a ter a certeza de que a morte é real e que nos conhece muito bem; sentimos um aperto no coração e uma vontade indescritível de nos perpetuar em nossos filhos; analisamos e enfrentamos o mundo de forma bem mais sensata e cautelosa: somos, definitivamente, adultos! Depois dos quarenta, é até normal que nos sintamos velhos – apesar disto ser bastante relativo.
__Passados cinqüenta anos, todo ser humano pode estar numa posição certamente mais privilegiada no que tange à experiência. Entretanto, engana-se aquele ou aquela que julga não ter mais caminhos a percorrer, mais lições para aprender, mais experiências para adquirir. Se meio século transcorreu, cumulando o indivíduo de vivências, ainda há outro meio século a esperá-lo.
__A vida não tem idade. A vida é sempre recém-nascida.
__Na nossa mais recôndita intimidade, buscamos encontrar aquilo que nos torna mais plenos diante do mundo e do outro, todavia, há sempre um quê de vazio, a nos incomodar nas horas cinzentas. É o momento não vivido; é a palavra não dita e o doce não roubado na infância. É o sorriso não retribuído ou a carta nunca respondida. É a lágrima jamais compartilhada através de um pedido de perdão que, por nossa vaidade ou a mais profunda insipiência, jamais cruzou os nossos lábios...
__“Tempus fugit”!... E o caminho a ser ainda percorrido é bastante extenso.


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Rafael Calvet

terça-feira, 27 de maio de 2008

"Quem perde o tempo, eterna perda chora."


__Hoje, vinte e cinco anos depois, dou de cara com a mesma frase, que estampava o alto da parede de minha antiga sala de aula, sobre o quadro-negro. Ainda menino a frase me causava um certo "rebuliço n'alma"... Hoje, a frase me acorda no meio da noite.

__Quanto tempo já andei perdendo!

__Quanto sentido tudo isto faz hoje...