terça-feira, 21 de abril de 2009

haicai tarde demais


a noite carrega

o cansaço pelo espaço;

só pra quem se entrega...



(Rafael Calvet)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cem razões sem razões - sensações



qual a razão da tristeza que me toma?

por que tanta insistência em corrigir, em refazer - ou desfazer - o passado?

qual o sentido de tanto pregar a paciência, se a minha, aos poucos, se esvai?

por que ainda espero dos outros se mal aposto em mim mesmo?

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por que faço tantas perguntas que não querem ser respondidas?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

haicai do pesadelo-sem-razão




vem com a madrugada
susto medonho no sonho
sem dizer mais nada.



(Rafael Calvet)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

crisis – operis processio



crisis – operis processio
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a fumaça do incenso desenhava arabescos no ar.
um lá menor com nona dá início, no violão, a outra noite daquelas.
dança no fundo da taça um borrão rubro de um necessário Porto:
outra vez a taça cheia; na lembrança, uma qualquer outra lua cheia...
cheia de mim por ser tão vazio de realizações.
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nos dedos, a dança das cordas na busca pelo acorde certo: esquecimento;
na voz, o embargo do que não foi cantado, do que não foi... jamais poderia ter sido.
nos olhos, a mesma qualquer outra lua cheia derrete, desfaz-se, escorre e vai.
mais um borrão rubro-sangue no fundo da taça, de novo a taça cheia.
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(Rafael Calvet)

domingo, 18 de janeiro de 2009

O Susto Nosso de Cada Dia



__Às vezes sinto como se viver fosse tal qual um susto após outro. Em tempos de violência, é mais ou menos isso.

__Há quem diga que é besteira, que é puro exagero de quem está à beira da síndrome do pânico - coisas de quem se institucionalizou na vida urbana. Besteira? Nunca! Exagero? Talvez... O fato é que tornou-se um hábito coletivo esse negócio de tentar escapar do mórbido sorteio do destino: quem será aquele que encontrará a bala perdida?, quem perderá mais um celular - que ainda não está pago! - para o assaltante da vez?, quem será a nova vítima de uma abordagem diante de um caixa eletrônico?... de quem será a vez?

__Acabou aquele negócio de Robin Hood, o romântico ladrão que tirava dos ricos soberbos para distribuir aos pobres desassistidos, a fim de lhes saciar a fome de pão. Não há mais o famoso "roubar para sobreviver", e sim "azar o teu que tem o que eu quero e não posso pagar... aliás, me dá esse par de tênis maneiro também, vagabundo!"... Isso mesmo, VA-GA-BUN-DO! Assim somos chamados, os que madrugam para não perder o transporte que leva ao trabalho, os que pagam impostos, os que sustentam um lar, os que suam a camisa e a fronte acreditando que um dia, tudo pode melhorar. Somos vagabundos.

__Não aceito que me digam que é besteira o susto de cada dia. A violência tornou-se um status de cidade que se diz grande. Ser mau é "cult", dá ibope. Ostentar um celular recém-roubado pode dar pontos positivos na hierarquia dos criminosos de plantão - mais ainda se for um celular de última geração, mesmo que contenha algumas manchinhas de sangue...

__O que está acontecendo com os nossos dias? Em que estamos nos transformando? O que nos aguarda?

__Não acho que escrevo besteiras.

__Posso apenas estar exagerando.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Haicai do Amor-Solidão


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insuportável.

flor que brota no deserto:

irresistível.

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(Rafael Calvet)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Fones de ouvido

__Mais de doze horas fora de casa, cumprindo uma jornada de trabalho que começa às seis e quinze da manhã, quando pego o primeiro ônibus. Livros, trabalhos, provas e alguma coisa para comer num almoço solitário e, como sempre, apressadíssimo, pois logo devo retomar a rotina de professor.
__Os dias são assim. Sempre assim. Acordar cedo, antes do sol; café com pão e pressa; barba por fazer quando a navalha não precisar correr. Passos marcados na descida da escada que me conduz ao lado de fora do meu sossego. Outro dia de trabalhos tem início com o meu rosto já banhado de suor... No final, dormir tarde, depois da lua.
__No coletivo, depois de vencer uma desordenada fila de peões anônimos e tantas vezes vistos na minha rotina, tento revigorar a minha fé em dias melhores, orando e pensando em minha esposa e minha filha – razões da maratona diária – que ficam em casa, à espera do pai-de-família-de-cada-dia. Também experimento intermináveis minutos de tensão em toda a trajetória até a escola, afinal, minha tranqüilidade foi embora desde que três criminosos se interpuseram no curso de nossas (minha e de minha família) vidas, num ousado e violento assalto dentro de um ônibus que nos conduzia de volta a casa. Em outra ocasião, outro ousado ladrão assaltou-nos, com requintes de um sadismo e um sarcasmo ameaçadores, amparados pela segurança que um revólver dá a quem o segura. Levaram-nos muito mais do que os pertences; roubaram-nos a paz. Oro por uma viagem tranqüila.
__Quando dá, coloco fones de ouvido para tentar me isolar um pouco daquele ambiente opressor, onde uma hipérbole de pessoas se espreme e tenta, a todo custo, vencer desonestamente todas as leis da física – em especial aquela que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço – e do bom senso.
__Alguma notícia importante, anúncios de festas aonde sei que jamais irei, propaganda, as músicas do momento e do passado que me remetem a uma época da qual nem tudo é saudade... mas às vezes sim. Os fones de ouvido são uma tábua na qual me agarro para escapar daquilo tudo. São minhas asas de Ícaro.
__Em dado momento das tantas viagens percebi que não sou o único usuário dos fones. Mais de dez pessoas com o olhar preso em algum ponto que só o fone de ouvido sabe qual é. A velha pressa dos honestos.
__Enquanto o ônibus vai perfazendo o seu itinerário, vejo o isolamento, os anseios, a angústia de quem corre a cada dia, plugado num som qualquer repleto de quimeras. De repente, vejo a mim mesmo; busco a interpretação das quimeras que correm nas notas musicais que transbordam de meus fones, inundando meus ouvidos com a esperança de que além de mim (naquele causticante ônibus), meu desespero também é “passageiro”.
__Ah, a dura e cronometrada rotina! A velha saga dos que são, como eu, perseguidos implacavelmente pelos relógios de ponto. Mas ainda há, felizmente, os fones de ouvido!