quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Aforismo I


Às vezes acho que a gente é um bando de bonecos sem graça...

domingo, 31 de maio de 2009

O Velho na Calçada



Sentado, aos pés do luxo,


jeito de achar-se lixo,


um homem sem nome,


um velho:


Mãos calejadas estendidas;


olhos suplicantes,


marejados e desiludidos;


voz rouca, distante,


perdida - "Por favor, moço..."


O Velho pede um olhar fraterno.


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As roupas rasgadas e desajustadas,


(nojo de quem passa)


a pele suja e maltratada,


(desprezo de quem vê)


cheiro de quem não sonha mais:


(pesadelo de todos)


o Velho. Um velho.


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Sente-se nada ou nada mais do que um bicho.


Bichos são homens-seres sem nome


que saciam a inesgotável fome


no lixo!


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O Velho olhou para mim.


Fraternalmente, um velho olhou para mim...


Mas não consegui lhe dar


mais do que uma moeda...




(Rafael Calvet)
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___Já se passou muito tempo, desde que esta epifânica situação me arremessou contra a folha de papel e minha máquina de datilografar...
___Creio que o velho de então já não mais existe. Mas a situação, esta, insiste!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O sono distante

____Tem sido difícil dormir bem. Aliás, simplesmente dormir tem sido muito, mas muito difícil mesmo. Não sei se é o descrédito no sonho - algo que vai muito além da insônia - ou se é a ânsia de não mais perder outro segundo dos milênios que já perdi, que já desperdicei com o sono, com as quimeras...
____Mais que a dificuldade de dormir, tem sido quase doloroso acordar.
____Enquanto isso, os ponteiros do tempo vão fugindo...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

sobre mim


_

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sobre a mesa

papéis

sobras

de mim

sobretudo.

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compromissos,

sem promessas,

ou premissas

de mim

contudo.

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sobre mim,

sobram

os entretantos.

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(Rafael Calvet)

terça-feira, 21 de abril de 2009

haicai tarde demais


a noite carrega

o cansaço pelo espaço;

só pra quem se entrega...



(Rafael Calvet)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cem razões sem razões - sensações



qual a razão da tristeza que me toma?

por que tanta insistência em corrigir, em refazer - ou desfazer - o passado?

qual o sentido de tanto pregar a paciência, se a minha, aos poucos, se esvai?

por que ainda espero dos outros se mal aposto em mim mesmo?

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por que faço tantas perguntas que não querem ser respondidas?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

haicai do pesadelo-sem-razão




vem com a madrugada
susto medonho no sonho
sem dizer mais nada.



(Rafael Calvet)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

crisis – operis processio



crisis – operis processio
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a fumaça do incenso desenhava arabescos no ar.
um lá menor com nona dá início, no violão, a outra noite daquelas.
dança no fundo da taça um borrão rubro de um necessário Porto:
outra vez a taça cheia; na lembrança, uma qualquer outra lua cheia...
cheia de mim por ser tão vazio de realizações.
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nos dedos, a dança das cordas na busca pelo acorde certo: esquecimento;
na voz, o embargo do que não foi cantado, do que não foi... jamais poderia ter sido.
nos olhos, a mesma qualquer outra lua cheia derrete, desfaz-se, escorre e vai.
mais um borrão rubro-sangue no fundo da taça, de novo a taça cheia.
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(Rafael Calvet)

domingo, 18 de janeiro de 2009

O Susto Nosso de Cada Dia



__Às vezes sinto como se viver fosse tal qual um susto após outro. Em tempos de violência, é mais ou menos isso.

__Há quem diga que é besteira, que é puro exagero de quem está à beira da síndrome do pânico - coisas de quem se institucionalizou na vida urbana. Besteira? Nunca! Exagero? Talvez... O fato é que tornou-se um hábito coletivo esse negócio de tentar escapar do mórbido sorteio do destino: quem será aquele que encontrará a bala perdida?, quem perderá mais um celular - que ainda não está pago! - para o assaltante da vez?, quem será a nova vítima de uma abordagem diante de um caixa eletrônico?... de quem será a vez?

__Acabou aquele negócio de Robin Hood, o romântico ladrão que tirava dos ricos soberbos para distribuir aos pobres desassistidos, a fim de lhes saciar a fome de pão. Não há mais o famoso "roubar para sobreviver", e sim "azar o teu que tem o que eu quero e não posso pagar... aliás, me dá esse par de tênis maneiro também, vagabundo!"... Isso mesmo, VA-GA-BUN-DO! Assim somos chamados, os que madrugam para não perder o transporte que leva ao trabalho, os que pagam impostos, os que sustentam um lar, os que suam a camisa e a fronte acreditando que um dia, tudo pode melhorar. Somos vagabundos.

__Não aceito que me digam que é besteira o susto de cada dia. A violência tornou-se um status de cidade que se diz grande. Ser mau é "cult", dá ibope. Ostentar um celular recém-roubado pode dar pontos positivos na hierarquia dos criminosos de plantão - mais ainda se for um celular de última geração, mesmo que contenha algumas manchinhas de sangue...

__O que está acontecendo com os nossos dias? Em que estamos nos transformando? O que nos aguarda?

__Não acho que escrevo besteiras.

__Posso apenas estar exagerando.