sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Haicai do Amor-Solidão


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insuportável.

flor que brota no deserto:

irresistível.

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(Rafael Calvet)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Fones de ouvido

__Mais de doze horas fora de casa, cumprindo uma jornada de trabalho que começa às seis e quinze da manhã, quando pego o primeiro ônibus. Livros, trabalhos, provas e alguma coisa para comer num almoço solitário e, como sempre, apressadíssimo, pois logo devo retomar a rotina de professor.
__Os dias são assim. Sempre assim. Acordar cedo, antes do sol; café com pão e pressa; barba por fazer quando a navalha não precisar correr. Passos marcados na descida da escada que me conduz ao lado de fora do meu sossego. Outro dia de trabalhos tem início com o meu rosto já banhado de suor... No final, dormir tarde, depois da lua.
__No coletivo, depois de vencer uma desordenada fila de peões anônimos e tantas vezes vistos na minha rotina, tento revigorar a minha fé em dias melhores, orando e pensando em minha esposa e minha filha – razões da maratona diária – que ficam em casa, à espera do pai-de-família-de-cada-dia. Também experimento intermináveis minutos de tensão em toda a trajetória até a escola, afinal, minha tranqüilidade foi embora desde que três criminosos se interpuseram no curso de nossas (minha e de minha família) vidas, num ousado e violento assalto dentro de um ônibus que nos conduzia de volta a casa. Em outra ocasião, outro ousado ladrão assaltou-nos, com requintes de um sadismo e um sarcasmo ameaçadores, amparados pela segurança que um revólver dá a quem o segura. Levaram-nos muito mais do que os pertences; roubaram-nos a paz. Oro por uma viagem tranqüila.
__Quando dá, coloco fones de ouvido para tentar me isolar um pouco daquele ambiente opressor, onde uma hipérbole de pessoas se espreme e tenta, a todo custo, vencer desonestamente todas as leis da física – em especial aquela que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço – e do bom senso.
__Alguma notícia importante, anúncios de festas aonde sei que jamais irei, propaganda, as músicas do momento e do passado que me remetem a uma época da qual nem tudo é saudade... mas às vezes sim. Os fones de ouvido são uma tábua na qual me agarro para escapar daquilo tudo. São minhas asas de Ícaro.
__Em dado momento das tantas viagens percebi que não sou o único usuário dos fones. Mais de dez pessoas com o olhar preso em algum ponto que só o fone de ouvido sabe qual é. A velha pressa dos honestos.
__Enquanto o ônibus vai perfazendo o seu itinerário, vejo o isolamento, os anseios, a angústia de quem corre a cada dia, plugado num som qualquer repleto de quimeras. De repente, vejo a mim mesmo; busco a interpretação das quimeras que correm nas notas musicais que transbordam de meus fones, inundando meus ouvidos com a esperança de que além de mim (naquele causticante ônibus), meu desespero também é “passageiro”.
__Ah, a dura e cronometrada rotina! A velha saga dos que são, como eu, perseguidos implacavelmente pelos relógios de ponto. Mas ainda há, felizmente, os fones de ouvido!

Pedra-Flor

Eu diante da pedra
que o poeta me ensinou:
"teu sangue é o cinzel
que a pedra torna flor".
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Eu diante da flor
que a vida espera
levar do cheiro e da cor
que fluíam do fundo da pedra:
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Eu pintando a pedra
com um sonho furta-cor
como a vida-minha, essa quimera,
que anseio por tornar flor.
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Eu, como a flor,
espírito feito de pedra,
respiro e assimilo a dor
numa constante e ansiosa espera
pela alma gêmea, meu clamor;
pela vida despida de dor;
um sonho, pulsante, ardor;
os olhos salgados de amor
e o coração libertado da guerra.
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(Rafael Calvet)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Férias


Dias diferentes.

Dias do "hoje eu não preciso fazer isso ou aquilo".

As férias estão se encaminhando para os seus últimos momentos e estou com aquela sensação de despedida, como aquela dos aeroportos ou estações rodoviárias. O dia da viagem de alguém querido está chegando e o inconformismo bate à porta. Ao mesmo tempo, temos a grande e incontestável certeza de que a despedida é temporária. Outras férias virão.

Mas, ô saudade chata...

Nesta última temporada contei com eventos que há muito não vivia: viagens, passeios, reencontros, cinema com pipoca, meus desenhos e escritos guardados, um pouco de meu empoeirado violão, músicas tantas, leituras e, o mais importante, a presença mais constante ao lado de minha família.

Daqui a pouco as férias terminam e o ritmo alucinado do trabalho e preocupações agregadas retornam com o despertador programado para tocar muito, mas muito mais cedo. Entretanto estou com uma paz há tanto distante...

Não vou lamentar o fim destas férias porque tenho a certeza de que o vindouro tempo de trabalho me fará ansioso pelo próximo período de repouso e lazer.

Outras férias virão para que eu sempre tenha a certeza.

sábado, 7 de junho de 2008

Algo escrito há tanto tempo, que até parece que foi hoje...


“Tempus fugit!”

__O tempo foge, segundo a concepção dos antigos filósofos gregos, que incitavam o homem a viver a vida – “Carpe Diem!” – porque esta, invariavelmente, tem um fim.
Decerto que este texto não é uma dissertação sobre a morte ou sobre o pessimismo; ao contrário, é um pequeno ensaio sobre a vida, ou melhor, sobre as vidas que existem em cada vida, afinal de contas, não é todo dia que podemos contemplar mais uma fase da existência de um ser que amamos.
__Cada ano vivido corresponde a uma etapa de aprendizado para o nosso espírito. Ano após ano temos a grata oportunidade – que nos é oferecida por Deus – de galgarmos mais um passo rumo à paz, à harmonia. Eis o sentido da vida; sempre mais concreto e coerente quando se vislumbra, de coração leve, tudo aquilo de mais sublime que conseguimos conquistar ao longo de nossa jornada por esta terra gloriosa.
__Ao fim de uma década de existência, podemos perceber que já somos capazes de fazer julgamento de valores e discernir o certo daquilo que está ou é errado. Aos quinze anos, achamos que tudo nos pertence e que o mundo, apesar de ser pequeno demais, não pode ser ignorado e, por isso, deve ser explorado e conquistado por nossa rebeldia. Vinte e cinco anos e temos a impressão de que a juventude não é eterna, tal como sempre sonhamos e, quiçá, um dia realmente acreditamos. Trinta anos e nos sentimos “jovens senhores ou senhoras”; passamos a ter a certeza de que a morte é real e que nos conhece muito bem; sentimos um aperto no coração e uma vontade indescritível de nos perpetuar em nossos filhos; analisamos e enfrentamos o mundo de forma bem mais sensata e cautelosa: somos, definitivamente, adultos! Depois dos quarenta, é até normal que nos sintamos velhos – apesar disto ser bastante relativo.
__Passados cinqüenta anos, todo ser humano pode estar numa posição certamente mais privilegiada no que tange à experiência. Entretanto, engana-se aquele ou aquela que julga não ter mais caminhos a percorrer, mais lições para aprender, mais experiências para adquirir. Se meio século transcorreu, cumulando o indivíduo de vivências, ainda há outro meio século a esperá-lo.
__A vida não tem idade. A vida é sempre recém-nascida.
__Na nossa mais recôndita intimidade, buscamos encontrar aquilo que nos torna mais plenos diante do mundo e do outro, todavia, há sempre um quê de vazio, a nos incomodar nas horas cinzentas. É o momento não vivido; é a palavra não dita e o doce não roubado na infância. É o sorriso não retribuído ou a carta nunca respondida. É a lágrima jamais compartilhada através de um pedido de perdão que, por nossa vaidade ou a mais profunda insipiência, jamais cruzou os nossos lábios...
__“Tempus fugit”!... E o caminho a ser ainda percorrido é bastante extenso.


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Rafael Calvet

terça-feira, 27 de maio de 2008

"Quem perde o tempo, eterna perda chora."


__Hoje, vinte e cinco anos depois, dou de cara com a mesma frase, que estampava o alto da parede de minha antiga sala de aula, sobre o quadro-negro. Ainda menino a frase me causava um certo "rebuliço n'alma"... Hoje, a frase me acorda no meio da noite.

__Quanto tempo já andei perdendo!

__Quanto sentido tudo isto faz hoje...

sábado, 24 de maio de 2008

As imagens que sempre hão de vir

Refletida em meu espelho,
a imagem que vejo,
trêmula, indefinida,
acena como quem se despede.
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Não a encaro.
Imito, vacilante, seu aceno,
como quem busca, também, se despedir.
Despeço-me de mim.
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Súbito, sem querer,
e como quem busca por isso,
nossos olhares - meus olhares - se encontram.
Em vão disfarço minha angústia;
então faço-me não-ser,
por tanto tempo não estar.
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R. Calvet

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Corpus Christi


_Hoje é véspera de Corpus Christi.

_Amanhã é feriado.

_Para muitos, hoje é véspera de qualquer coisa. O importante é que amanhã é feriado.

_Não vou dar corda em meu relógio.

_Acordarei tarde. Tomarei meu café calmamente, dessa vez, com pão e manteiga. Soprarei a poeira de meus livros. Ouvirei alguma música porque terei tempo de escolher um CD na estante. _Vou ficar com minha esposa e minha filha e guardar a emoção do "Vai com Deus e volte com Deus!" de todos os dias para a próxima sexta-feira.

_Porque amanhã é Corpus Christi. E hoje é véspera de uma paz que eu espero há tanto tempo...

_Experimento um êxtase quase infante, de véspera de natal, com cheiro de panetone e presentes debaixo da árvore.

_Amanhã não me preocuparei se amanhecer chovendo. Não olharei para o relógio. Não escolherei blusas que combinem com a aula que eu não vou dar. Nada de diários de classe, nada de questionários não compreendidos por quem não se compreende.

_Hoje é véspera de mim. Saberei o que pensar, o que fazer. Meditarei em silêncio porque haverá silêncio para a meditação. E paz, sobretudo, PAZ!

_Hoje é véspera de um momento que não é só um feriado.

_Amanhã é Corpus Christi.

_Hoje é véspera de paz!

_Amém.
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_(R. Calvet)

A madrugada respira idéias bastantes...

"Porque a existência é tão efêmera
como o orvalho do entardecer e a geada da manhã,
e especialmente incerta é a vida do guerreiro."
- Daidoji Yuzan - O Código do Samurai

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Insônia


__Aqui, onde estou, tudo parece diferente. Tudo parece ganhar proporções singularmente assustadoras e, enquanto penso nisto, sou invocado para testemunhar a morte de mais um dia. O relógio na parede não parou para pensar em mim...
__Em poucos minutos devo estar preparado; não para recomeçar, mas para continuar sem me preocupar com a dimensão de certas coisas - nem todas são assustadoras; nem todas são coisas.
__Sinto, aliás, pressinto o amanhã cada vez mais presente no meu modo de agir e pensar, no entanto, a vida não me permite entender o processo. Sim, o relógio continua lá, me observando com seus ponteiros apressados... falta pouco.
__Agora começo a entender por que minha felicidade é tão relativa - minha razão de ser tão ensimesmado é, também, muito relativa - e por que devo estar mais concentrado e presto, pois o dia convalesce enquanto outro nasce, à minha espera. Presto, eu disse!
__Falta pouco... muito pouco...
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(R. Calvet)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Beijo Guardado

café e metáforas
fizeram minha língua
amarga,
e já tão cansada
por não saber,
ainda,
conjugar
o verbo certo...
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minha língua
busca a doçura
de outra língua,
que é a tua e a minha,
noutro beijo - meu desejo!
que é o teu;
não tão meu...
_
minha língua
repousa agora santa,
solta,
num canto, só,
sob um céu da boca
sem estrelas,
sem sabor.
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R. Calvet

domingo, 11 de maio de 2008

Tempus fugit

Enquanto enterro
pés e mãos
em trabalhos sem sentido
e sem razão
meus grãos
escoam
ora lenta
ora rapidamente...
Para onde vai
o tempo
que insisto em perder?
Por que insistem tanto
para que eu me perca?
Caindo vão os grãos
para o fundo
de minha ampulheta...
Por que o "sentir-me assim"?
R. Calvet

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Passatempos (ou Subterfúgio)


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________________________________________Para Nani

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Um gole de café...

é fim de tarde.

Capuccino, chantilly... ou um Chianti?!

Em meu corpo, tudo que é você arde!

Em mim, resquícios de um sorriso distante.

- Saudade!

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Passo o tempo mais um pouco.

Como um louco, busco passatempos:

Rei ameaçado - "cavalo preto na f3!" - xeque-mate!

... e outro café ludibria a tarde...

E esquenta - ou tenta! - o meu corpo

... que arde!

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- Onde estás? - pergunto noutro fim de tarde...


R. Calvet
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Créditos da foto: "Nu", de Luís Mendonça

quarta-feira, 7 de maio de 2008

"Desta água não beberei"





(um texto de improviso,
que quero dedicar a todos os mártires
improvisados pela verdade
e moldados pela virtude)

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Já faz um certo tempo – e como estamos em tempos hiperdinâmicos, hiperbólicos, hiper-modernos, já faz bastante tempo mesmo –, creio que em 1998, um momento epifânico de um colega me fez despertar um questionamento que ainda carrego comigo desde sempre (e até quando?).
Primeiro foi o nada nutritivo (e muito menos leve!) almoço no restaurante universitário (no caso, o R.U. da Universidade Federal do Ceará, Campus do Benfica). Ah! Lembro bem que era algo parecido com um frango, meio acinzentado e sabor subterfúgios, acompanhado por uma massa uniforme branca a que o servente insistia chamar de arroz, além de uma porção de maníacos grãos, imensos e maníacos grãos de farinha, sedentos de obturações e lascas de dentes sensíveis para quebrar. “E não tinha feijão?”, perguntaria o leitor, ávido de saber – curiosidade vã, no caso –; “é claro que tinha feijão”, respondo, “eu é que não tinha coragem de comê-lo”. Para beber, “suco de amarelo”, cujo sabor costumava ofuscar o paladar de quem o consumisse pelas quatro ou cinco horas seguintes... e, apesar disso tudo, quanta saudade!
Depois do almoço, nada como uma sobremesa filosófica. Eu e alguns colegas, “satisfeitíssimos” com o repasto indigesto que a universidade nos oferecia por R$1,10 fomos ao bosque do curso de Letras. Sentamo-nos sob as mangueiras, recitamos nossas e alheias poesias, contemplativos, ruminando idéias mirabolantes e restos de mirabolantes grãos de farinha que teimavam, agarrados e confundidos com as obturações heróicas do dia. Solzinho, ventinho, passarinho, soninho... tudo em paz, tudo em ordem (sic?).
“Desta água não beberei!”... O passarinho que beliscava uma manga caída voou. E nós, despencados de nossos devaneios, olhamos para o autor do grito inesperado: “Quê?!”
Sem muita demora, os olhares inquisidores obtiveram uma explicação, e tudo girava em torno de uma estória muito antiga que, segundo nosso colega “filosofador-de-plantão”, era mais ou menos assim:

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“Há muito tempo, num reino distante, brotou, no meio de uma praça, num jorro, um olho d’água. O fato logo atraiu curiosos de todos os lugares, que queriam ver a água que nasceu da terra. Políticos oportunistas daquele lugar, aproveitando-se da superstição do povo, mandaram construir uma linda fonte, toda ornamentada, para que os fiéis (leia-se “bestas”) cultuassem a santa água e fizessem suas pequenas oferendas – alguns dobrões ou patacas que, diga-se de passagem, já não estariam mais lá no dia seguinte. Em pouco tempo a fonte virou símbolo daquele reino.
Um dia, a sede de alguém foi mais forte que a admiração pela fonte e tem início uma nova parte para a história do povo daquele local: um sujeito que passava por ali, sob um sol escaldante, recostou-se junto à borda da fonte e tomou alguns goles da tão famosa água. Saciada a sede, em gritos eufóricos e pulos tresloucados, o homem saía chamando a todos para também beberem um pouco daquela água, pois não sabiam o que estavam perdendo. O primeiro foi um moleque remelento, que tão logo tirou a cara de dentro da fonte, exibiu um sorriso incompleto – faltavam-lhe os dentes incisivos – e ensandecido; depois, uma moça que, mal tocou os lábios no cristalino líquido, rasgou o vestido rústico que usava e, nua, atracava-se com um monge com cara de coiote faminto e louco para também dar uns bons goles. Depois mais um, mais outro e outro ainda...
O único que ainda não havia provado daquela água foi um poeta. Desconfiara da mudança de comportamento de uns, e mais ainda da revelação da hipocrisia da maioria – como era o caso do monge com cara de coiote. “Desta água não beberei!”, disse ele resoluto. Decidiu não beber por acreditar que a loucura que subitamente acometera a todos daquele povoado provinha da maldita fonte. E estava certo. Apesar disso, cometeu um erro; neste caso, o seu último erro.
O poeta estava decidido a reverter aquele processo irreversível. Coitado! Saiu pelas ruas tentando avisar as pessoas sobre o perigo daquela água. Tarde demais! Todos já estavam loucos e, por esta razão, não o compreendiam.
Sozinho ficou o poeta com as suas convicções e com a sua razão sem serventia alguma. Racionalmente ficou só, no meio de loucos. Um alienígena em terra estranha.
E foi, derrotado, até a fonte, com uma caneca de cobre na mão, para matar a sua sede de companhia. Goles depois e o sorriso embasbacado do pobre poeta encontrava coro na multidão abobalhada.”
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Ninguém viveu feliz pra sempre na estória acima. Mas também não ficou só.
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Este é o problema. Este é o ponto em que eu queria chegar. Uma massa abobalhada prefere seguir na contra-mão do progresso, da evolução, só para não terminar só. A maioria prefere atropelar a consciência, afogar a ética, apunhalar a virtude pelas costas. Comodismo mesmo... Infelizmente!
Sinto-me um poeta mais resoluto. Desta água não beberei! Não preciso nem devo afogar em águas turvas de hipocrisia e covardia as minhas convicções. Não quero a companhia de multidões sem alma, sem tino.
Ainda que só, ainda que, porventura, perseguido, desta água não beberei!

(Rafael Calvet)






Créditos da foto: "Às avessas", de Ana Maria Russo

quinta-feira, 1 de maio de 2008

haicai momento


ouço um bem-te-vi,

olhando nuvens passando.

fico por aqui.

(Rafael Calvet)

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Créditos: Foto "Calmaria", de Benjamim Daniel

Abrindo gavetas

Há pouco tempo decidi abrir gavetas. Esvaziá-las.
Algumas prateleiras empoeiradas, repletas de reminiscências, também foram alvo de uma certa faxina pessoal. Acho que tenho uma mórbida mania de guardar tralhas em minha memória, coisas sem valor que vejo por aí em minhas vivências. Mas nem tudo – ao menos creio assim – é tão inútil assim. O que não foi rasgado ou queimado, nem jogado ao mar, emerge em algumas telas de computador, em algum lugar, a qualquer momento.

Não gosto de tudo o que escrevo. Apenas tento evitar a oportunidade de registrar em guardanapos, folhas amassadas e frias páginas do Microsoft Word o que vejo e penso, pelos lugares onde vou passando. Confesso, ainda, que até gosto de alguma coisa, como certos haicais – alguns imemoriais – e outros textos sem razões aparentes.

Começo a semear agora o que ficou guardado por tanto tempo; assim, quem sabe, algo floresça.


Grande grande abraço a quem quer que seja.


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Das coisas que nunca mais teremos


Um menino-poeta
rabisca sonhos lilases
em folhas de vento.
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Seus pequenos olhos
refletem o brilho
das coisas esquecidas
como as canções
perdidas no tempo.
(Rafael Calvet)

“Sob o sono dos séculos...”

Silenciosamente, mais uma noite. Mais uma semente plantada para fazer crescer um outro dia. As perspectivas do dia seguinte ganham contornos de angústia, pois as horas são como um carrossel: recomeço; repetições... gira-gira, giramundo e, de novo, tudo.
Sempre tive a vã esperança de que, um dia, o ponteiro dos segundos, em seu trabalho de Sísifo, rebelasse-se contra as leis de Cronos e, surpreendentemente, quebrasse as barreiras das expectativas entediadas. “Tic, tac, 58, 59, tic, 60, tac, 61, 62, tic, tac...” Enfim, o esboço de transformação! O tão esperado “agora vai”!
Mas não.

As horas vão e vêm; depois vão novamente para, em seguida, virem no mesmo e enfadonho giro do carrossel.
Sou obrigado a ter pressa.
É a sina do trabalho, que me exige quilômetros de textos digitados, provas sem-fim e incontáveis relatórios e planejamentos de aulas. E as horas vão passando enquanto minhas leituras prazerosas ficam de lado, com marcadores entre as páginas de tantos livros, à espera de seu ocupadíssimo leitor. Meu xadrez? Já nem sei. Quando posso, leio alguma coisa na internet, vejo fotos e imagino jogos que não jogo. Já não desenho – só faço uma infinidade de rascunhos e guardo numa das inúmeras e empoeiradas gavetas porta-projetos-inconclusos que existem em minha atormentada cabeça. E as horas vão acabando...
Amanhã começo tudo de novo.
TIC, TAC, TIC, TAC...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Alento (ou uma tentativa)




"A vida é tão curta

E a minha capacidade de criar

Tão intensa

E minha alma tão tensa de vier."

(Raul Brandão)


Uma boa caligrafia (suada e sangrada) ou alguns caracteres bem definidos não seriam suficientes para descrever a minha metamorfose. Não aquela metamorfose kafkiana, mas outra, em que tudo começa pelo inseto, não pelo homem: a minha metamorfose!

Repentinamente o tempo mudou o seu ritmo - eu expurguei o meu! - e passou a correr no compasso do meu coração calejado: os anos passados tornaram-se segundos incertos e abomináveis. Agora o tempo é um constante déjà vu. Eu sou um déjà vu! Eu sou o grão de areia rebelde que fugiu da ampulheta trincada.

Eu procuro dunas...

Bem sei que tudo aquilo que já escoou não retornará, nunca mais, ao cone superior... Nunca mais; a não ser quando invocado pelo tédio da memória ou pela incompreensível ânsia de saborear, desesperadamente, o fel oculto do desejo. Não saberia explicar como fui capaz de suportar, por tanto tempo a angústia de sentir que... É, talvez a minha metamorfose tenha começado a se manifestar antes do que eu supunha, e o então profundo entorpecimento dos meus sentidos camuflaram, convenientemente bem, cada gesto vazio, cada passo incerto, cada riso conivente e maldito.

Destarte, a percepção definitiva de que a minha fase é um fato, faz dos meus gestos verbos mais concisos; dos meus passos imprecisos um motor impulsionado pelas incertezas; do meu riso - virtude dos que ainda não entregaram a alma ao cansaço - um anseio constante para quem não é tão estóico assim.


R. Calvet

terça-feira, 22 de abril de 2008

Um Começo...

Em tempos de pressa, expor o pensar e sentir tornou-se raro.
Em tempos de pressa, a direção é incerta, a meta é duvidosa.
E o homem disse "Faça-se a NET!", e a NET foi feita. Desfeitos ficamos todos nós, o próprio homem, que desumanizou-se, que desumaniza-se paulatinamente - e, quiçá, irreversivelmente - a ponto de não saber mais conversar olhando nos olhos, de não saber mais manusear uma caneta - salvo para assinar promissórias e pontos.

Em tempos de pressa, também corro... mas atraso, por arrastar comigo a minha insubstituível necessidade de expressar o meu pensar, o meu sentir.

Em tempos de pressa, a cada parada obrigatória ou necessária, deixarei um pedaço de mim, a ser dividido como o pão, que nutre ou sufoca, num derradeiro engasgo.

Saúdo-me,
pelo começo.
Saúdo-te,
pela visita,
pela comunhão do pensar e sentir,
pelo momento de agora, que passa apressadamente.

R. Calvet